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A História do Banzé

Eu tinha 9 anos de idade e recém havia me mudado do Rio de Janeiro (Marechal Hermes) para Porto Alegre (Petrópolis). Estava muito feliz pois em Porto Alegre (Azenha) moravam os meus avós maternos, que eu amava de todo o meu coração!

Mesmo quando não morava em Porto Alegre, sempre vinha passar as férias de verâo com eles, e já conhecia toda a gurizada da vizinhança, eramos muito amigos e sempre brincávamos junto.

Num belo dia, estava junto com meus amigos brincando na casa de meus avós, e como já era hora do banho (17hs) meu irmão e eu fomos até a frente da casa para acompanhar um amigo e conversar mais um pouquinho.

Estávamos lá conversando quando vimos uma cachorrinha de rua que estava prenhe, quase a dar à luz aos seus filhotes.

Como ela era bem mansinha nos aproximamos, fizemos uns carinhos e ela imediatamente se afeiçoou à nós. Como estava no “hora do banho”, tinha que entrar, mas a cachorrinha ficou parada lá na frente do portão me olhando com o rabinho abaixado e um olhar triste de dar dó.

O meu coração também doeu. Parecia que era para eu “adotar” aquela cachorrinha, que embora a conhecesse apenas por alguns minutos já me afeiçoara.

Agora tinha que convencer os meus avós que eu queria ficar com a cachorrinha. Ah! Já ia me esquecendo… eu, meu irmão e nosso amigo já havíamos dado um nome para ela: Neneca.

Convencer os avós não foi difícil, pois eles nos amavam muito e compreenderam que adotar a Neneca ia nos deixar muito felizes. Isto foi num sábado, no domingo meus pais foram nos buscar. Aí que a coisa ia apertar! Mas não foi, minha mãe também se afeiçoou pela Neneca (acho que aquela cachorrinha tinha algo que cativava as pessoas) e o meu pai também concordou que poderíamos ficar com ela. Foi uma felicidade geral! Qual criança não quer ter um cachorro?

E lá fomos nós para nossa casa, meu pai, minha mãe, meu irmão (meu querido irmão) a tia Júlia (minha amada tia Júlia), eu e… a Neneca!

Lá chegando, tinhamos que arrumar um lugar para Neneca, e não vamos nos esquecer que ela estava prenhe, pronta pra dar à luz. Nossa casa era sobre pilotis (umas colunas) e na parte de baixo ficava a garagem, o quarto de empregada (pois é naquele tempo a gente tinha empregada!) e, entre outras coisas, um cantinho para guardar lenha para a lareira.

Pronto! Lá estava o cantinho da Neneca e de seus futuros pimpolhos. Arrumamos tudo direitinho, para que ela ficasse bem acomodada, colocamos um recipiente para água, outro para comida, um forro para o chão, um cobertor velho para ela se enrolar e fomos para cima. A Neneca parecia estar bem feliz, pois não parava de abanar o rabo, mas ficou bem quietinha quando saímos.

Fomos dormir, mas aquela noite eu e meu irmão estávamos bem agitados com o novo “membro” da família. Não esperávamos a hora de levantar no outro dia. Acordamos, nos levantamos, nos lavamos, tomamos café e corremos lá para baixo para ver a Neneca.

Meu Deus! Tivemos a maior surpresa: lá estava a Neneca lambendo seus tres filhotes Ela havia dado à luz durante a madrugada. Eram dois cachorrinhos e uma cachorrinha.

Como a Neneca era uma cadelinha vira-latas e vivia nas ruas, ele deve ter tido vários “amores”, pois um cachorrinho era branco, a cachorrinha era malhada (como a mãe), ambos de pelo liso e o outro tinha o pelo mais longo e castanho avermelhado.

Corremos para contar a novidade aos nossos pais, que também foram conferir o acontecimento. Ficamos todos muito entusiasmados.

Próximo passo? Dar nomes aos filhotes. A cadelinha era a Princesa, o cachorrinho branco era o Pepone (ambos os nomes foram dados pela minha mãe) e o outro… ah o outro! Eu e meu irmão não tirávamos o olho dele, e seu nome ficou sendo Banzé!

Passaram-se os dias, esperamos os filhotinhos crescerem e, como não podíamos ficar com todos, escolhemos o Banzé para ficar conosco. Demos a Neneca, a Princesa e o Pepone, foi bem fácil, pois (naquela época) as pessoas escolhiam seu cachorros por razões muito diferentes das de hoje, e raça não era uma delas.

Os tempos foram passando e o Banzé já era parte integrante da nossa família. Todos gostavam dele, era um cachorro dócil e amigo, muito companheiro e gostava de brincar conosco. Não precisava ficar preso (a “casinha” dele era aquele cantinho lá embaixo onde inicialmente ficara a Neneca). Não avançava nas pessoas, não ficava latindo ou rosnando por qualquer besteira, mas estava sempre atento a cuidar da casa e de nós.

Até que um dia (tres anos após o Banzé ter nascido), meu pai foi transferido para Brasília.

Como iríamos morar em um apartamento e o Banzé já era bem crescidinho, não pudemos levá-lo.

Interessante… a Neneca era uma cachorrinha pequena, como um terrier mas o Banzé era um pouco menor que um golden retriever adulto (sabe-se lá quem fora seu pai), a coloração de seu pelo também era parecidada com a de um golden retriever, talvêz um pouquinho mais escura.

Detalhe: como eu não achei nenhuma foto do Banzé nem da Neneca (incrível, não?), as fotos que ilustram esta história foram tiradas da internet, de cães muito parecidos com ambos.

Continuando. Fomos para Brasília e deixamos o Banzé com meus avós. Partimos com um nó no coração, meu irmão, eu e o Banzé.

Ficamos em Brasília por seis meses e meu pai foi transferido novamente, desta vez para São Paulo. Lá ficamos por dois anos e depois fomos para os Estados Unidos, onde ficamos por nove meses. E o Banzé sempre morando com os meus avós.

É claro que nas férias de verão nos íamos para porto Alegre Alegre e matávamos as saudades dos queridos avós e do Banzé. Acabadas as férias, lá iamos de volta para a casa de meus pais, seja lá onde eles estivessem.

Meus pais continuaram morando nos Estados Unidos e só voltariam depois. Eu e meu irmão voltamos antes por causa do início das aulas. Voltamos para Porto Alegre e fomos morar com os nossos avós e a tia Júlia (irmã de meu avô) que morava com eles (em outra história eu vou falar sobre a querida tia Júlia). E lá estava o Banzé.

No meio do ano eu e meu irmão fomos passar as férias no Rio de Janeiro (Ilha do Governador), pois meus pais já haviam voltado dos Estados Unidos e agora moravam em uma casa. Ao final do mês de férias eu decidi ficar no Rio, transferindo a minha matrícula. Meu irmão decidiu continuar em Porto Alegre. Minha tia Júlia foi para o Rio também, e o Banzé… também decidiu ir para o Rio de Janeiro!

Lá fiquei por um ano e meio, e meu pai foi transferido para Porto Alegre. Pelo menos em Porto Alegre (Petrópolis) nós iriamos morar em uma casa: meu pai, minha mãe, meu irmão, a tia Júlia, eu e o Banzé. Pronto, a familia estava novamente reunida!

Ao final de dois anos meu pai foi transferido (novamente) para o Rio de Janeiro, mas como eu já estava cursando a faculdade, não queria me transferir pela enésima vez de colégio/faculdade. Assim, eu fui morar sozinho em um JK, meu irmão foi morar com meus avós, a Tia Julia foi para o Rio com meus pais e com o Banzé.

Eu e meu irmão passavamos as férias na casa de meus pais, e foi em uma destas férias que o Banzé começou a apresentar sinais graves de insuficiência cardiaca. Quase não se movia e tinha dificuldade para respirar.

Tentamos medicá-lo (era meu irmão quem aplicava as injeções na veia de sua pata – coisa de dar dó o olhar de tristeza do Banzé), mas nada adiantava. Por fim levamos ao veterinário que encerrou a sua vida. Eu tinha 22 anos.

Uma tristeza tomou conta de todos nós, pois um amigo, um companheiro, criatura que eu jamais esqueceria havia partido (mais de 50 anos depois, ainda me lembro dele com carinho).

Até hoje sinto uma grande melancolia ao me lembrar do Banzé e dos tempos passados que jamais voltarão. Mas a vida é assim…

Categories: Minhas Histórias Tags:
  1. RuyJKasper
    April 19th, 2011 at 11:23 | #1

    Linda e comovente história!
    Não me recordava desta teu relacionamento com os amados cães.
    Abç.

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